De volta pra casa: acabou a aventura?

Por Themys Cabral e Robert Nespolo

Hoje, nós acordamos com um sentimento estranho. O regresso para casa estava realmente começando. Não tinha mais como evitar aquele sentimento latente e que estávamos adiando há dias, fugindo de senti-lo. O voo de retorno seria dali a algumas horas. Estávamos indo de volta pra casa.

A aventura havia realmente chegado ao fim? O sonho tinha acabado? Esses questionamentos, que vinham nos acompanhando ao longo dos últimos dias, tornaram-se inevitáveis hoje pela manhã.

Não que não estivéssemos felizes em rever a família e os amigos para poder matar a saudade acumulada de um ano. Lógico que estávamos! Mas o que apertava o peito era o depois disso.

O que seria da nossa rotina depois disso? Depois de todas as festas e reencontros? Dizem que depois de uma experiência dessa, como a que a gente viveu, é impossível não mudar. Mas o ponto é que sentíamos que não havíamos mudado nem uma vírgula.

Esse sentimento de mudança ainda não nos caiu. Porém, o que mais nos deixa apreensivos é perceber que talvez esse sentimento caia só agora. O que significa que somos “Robert” e “Themys” diferentes daqueles que partiram. Mas nós ainda não conhecemos os novos “Robert” e “Themys” e tampouco sabemos se gostamos deles ou não.

Sabe aquela história de cair na estrada para “buscar o seu eu interior”? Não havia rolado para nós. Não que tivéssemos tido essa pretensão algum dia, aliás. Mas achávamos que a essa altura já teríamos um pouco mais de respostas. A verdade, no entanto, é que estamos voltando com mais perguntas do que quando partimos. Talvez uma única resposta nos sobrou: a vida pode ser vivida de formas bem diferentes. E isso é que faz o mundo incrível.

Nas costas, voltamos com, além dos quilos da mochila, experiências, sensações e a certeza de realmente ter vivido de verdade. Por um ano em nossa vida nós paramos tudo com o intuito de viver cada minuto, cada segundo, para nós mesmos, celebrando o que mais temos de importante na vida: a vida. E foi intenso!

Sentir o vento batendo no rosto, os sabores exóticos, os cheiros, contar estrelas cadentes do deserto, conhecer a infinita paleta de cores que pode ter um pôr do sol, o compasso e as cores das luzes boreais a pintar o céu. Aspirar vida. Exalar felicidade.  Foram momentos únicos que jamais serão replicados, explicados ou esquecidos.

Depois de um ano cuja rotina era trocar de cama a cada 3 ou 4 dias, se aninhar em um travesseiro diferente, procurar a padaria mais próxima, um jeito novo de atravessar a rua, de usar os talheres (ou nem usar), descobrir como pegar ônibus ou metrô na nova “casa”, apostar quantos ratos seriam encontrados no trajeto para o hostel, curtir as horas intermináveis das deliciosas tenebrosas viagens de ônibus, aprender uma nova língua (nem que fosse para dizer “por favor” e “obrigada”)… Sentir a força da corrente do bem que une as pessoas ao redor do mundo… Inesquecível!

Depois de viver 360 dias em 33 países, num ano completamente fora da nossa zona de conforto, o que nos assusta é saber que estamos voltando para a nossa zona de conforto. Irônico, não?

Para a maior parte das pessoas poderia ser o fim da aventura. Nós pensamos isso durante muito tempo também.  Mas não!

Não faltam ideias e novos planos para novas aventuras. O momento agora, porém, é de viver os sentimentos confusos e, às vezes, doloridos, do coração. Matar saudades, se conhecer de novo e preparar o corpo e a alma para a próxima empreitada. E tem jeito de fazer isso melhor do que nos braços da família, amigos e de todos aqueles que, por um ano, mesmo de muito longe, estiveram no nosso ladinho mandando energias tão boas que nos protegeram a todo o momento?

E, tá, e depois disso? Ah, depois disso tem muita coisa para viver!!! É só o tempo de colocar o coração em ordem e tomarmos um pequeno fôlego.  Mas não tarda muito, não. Sabe por quê? Porque nós somos viciados em viver.

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Modificado e otimizado por Jean Kássio